Condomínios de concentração


         A extrema direita, no Brasil, protagoniza os exemplos mais grotescos no âmbito do debate político. Esta corrente política, turbinada por uma mobilização internacional, cujos influxos alcançaram o Brasil e fora robustecida pela visibilidade que figuras como Bolsonaro alcançaram nos últimos anos, num processo que ostenta um discurso fascistóide, em que a lógica da violência encontra lugar de protagonismo, pensa as dimensões do Estado a partir de uma visão entreguista e privatista; razão pela qual, destacarei a recente "pérola" daquele inepto ex-ministro da educação bolsonarista Abraham Weintraub, atual candidato ao governo de S. Paulo - em  que pese morar em Washington nos EUA.

O mesmo propõe solução curiosa para a resolução da crise em segurança pública, qual seja, o fechamento de bairros (periféricos) com vistas a sanar o problema da violência a partir da lógica condominial, em que guaritas seriam instaladas, às quais, policiais (“dois ou três) seriam destacados de modo a conferir segurança para as pessoas que não possuem “grana” para pagar.

Veja. A confusa proposta, na base da qual habita uma flagrante marca segregacionista, divide a população entre um condômino de primeira classe e um periférico de 5ª, sob o discurso de que o fim último será a utilização dos bairros com liberdade (cabe sublinhar que a indigitada proposta negrita acabar com “funk” e o “assalto”).

Vejamos a fala dessa figura:

 “Eu quero levar essa segurança para a periferia.       

Vamos fechar os bairros e colocar segurança. Se for o caso, as pessoas que não possuem grana para manter segurança, vamos colocar policiais em três, ou quatro ruas com guarita. Para entrar, basta se identificar à noite. [com essa proposta] Acaba o funk, acaba o assalto, você dorme em paz“ (...).

Evidente que ninguém precisa dominar os elementos básicos de análise do discurso, da semiótica, para identificar a absoluta estupidez da proposta, uma vez que a lógica da privatização da segurança pública perfaz o centro desse tipo de loucura. Ou seja: o aparelho repressivo do estado, cuja concepção e finalidade residem na ação preventiva/ostensiva (polícia militar) e de persecução penal na figura da polícia judiciária (polícia civil), papéis ignorados por esse indivíduo morador de W.C., garantiria, a partir da malfadada implementação, a legitimação institucional de grupos criminosos, os quais, sob a blindagem de seguranças particulares e aparelho estatal, não encontrariam obstáculo para consolidar um poder inegavelmente instalado.

 Ora, a relação das pessoas com seus bairros restam atravessadas pela vivência comunitária, na base da qual, a individualidade é construída, razão pela qual, erguer guaritas e a exigência de identificação para ingresso em seu espaço de referência concreta significará a produção moderna de “campos de concentração” (ou, "condomínios de concentração"), nos quais, o confinamento será a base para as relações, condição que inauguraria outras formas de corrupção, como o suborno a policiais e seguranças privados para ingresso indevido no espaço urbano ou mesmo um "up" na galvanização do crime organizado, à medida que as zonas de domínio dos mesmos estariam blindadas pela cooperação estatal privatista.

          A crítica a essa imbecilidade, em verdade, precisa ultrapassar essa camada que é a menos relevante em razão do ridículo que representa; porém, é justamente por ser ridícula, que oculta o real propósito consistente numa provocação “porca” e tendente a arrastar o debate para o extrato em que a extrema direita "deita e rola", qual seja, o lugar do senso comum; o lugar sem vergonha das soluções fáceis, as quais encontrarão abrigo no seio dos incautos, na consciência estúpida e pior, naquelas pessoas humildes de boa-fé, para quem as boas intenções do perverso Weintraub soarão como doce melodia.

        Por fim, o candidato informou, que voltará a viver no Brasil caso seja eleito.


Em algum lugar nessa distopia chamada Brasil,

Maurício C. Alves.

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