Educação e os ciclos ideológicos

  

 
Os ciclos de transformações na educação ocorrem na história sob o escopo ideológico hegemônico, e, neste processo, a preponderância de certos paradigmas pedagógicos à luz dos interesses da elite dominante na sucessão dos tempos, perfaz condição sobre a qual se faz oportuno debruçarmo-nos, com vistas à análise das implicações decorrentes dos reais propósitos que não raro se ocultam nos discursos que, se no passado defendiam abertamente a exclusão educacional como pressuposto intrínseco à condição humana,  noutra quadra elege-se a escola como espaço redentor.

Nesse diapasão, um amplo espectro filosófico se traduz em parâmetro e orientação a diversas correntes pedagógicas ao longo de diferentes fases históricas, no interior das quais, inúmeras concepções resultaram na geração de um arcabouço tão amplo e ao mesmo tempo tão revelador do quão os métodos de ensino expressam os pendores da ideologia de ocasião, que, perscrutar as razões de fundo a configurar a feição substantiva dos modelos preponderantes é tarefa deveras desafiadora.
 
Deste bordo, impende sublinhar, à luz da história, que, expressões de máxima desigualdade no campo educacional decorriam do pensamento prevalente acerca das distinções inerentes aos indivíduos a partir dos arranjos sociais vigentes, condição a revelar a correspondência entre um modelo societário fundado nas diferenças institucionalmente estabelecidas e seu consequente reflexo nas condições objetivas de existência.


Em consonância, convém considerar, em linha com a ideia que exsurge para reflexão, que, se a liberdade era uma condição (na antiguidade) marcada pela origem, a legitimação da escravidão fruto das guerras de conquista e para a qual a vida humana correspondia - à semelhança dos bens materiais - importante espólio do qual se serviam as nações vitoriosas, não restaria espaço para relativizações quanto à objetificação dos indivíduos.
 

 Em consonância, tal obliteração traria inescapáveis repercussões à dimensão educacional, a qual seria dirigida a uma elite cuja concepção - conforme modelo grego - incorporaria a estratificação social (castas) como fundamento lógico ao regular funcionamento da sociedade, para o qual, de acordo com a idealização platônica, seria assentada numa estrutura que reproduzisse os papéis sociais a partir da referência organicamente manifesta no corpo humano.


A concepção acima exposta, se ancora na constituição anátomo-fisiológica do ser humano, a qual, de acordo com Platão, compreende referência a reproduzir a noção de que, para um modelo de sociedade ideal deverão os homens observar que cada categoria de atores precisa ser topicamente situada; ou seja: é fundamental que ocupe seu respectivo lugar no corpo social em conformidade com parâmetros verificáveis, tais como nos leciona a região do ventre que está  em relação de correspondência com os comerciantes e escravos, situando, por inferência consequencial, os guerreiros à região do peito e os dirigentes/filósofos identificados como aqueles que ocupam a cabeça.

 

 À luz de tal padrão societário é possível verificar, de plano, que a elite material e intelectual ocupantes do ápice da estrutura, ostentam as condições factuais e simbólicas que lhes outorgarão o papel de fiéis depositários de todo patrimônio cultural que lhes diferencia das demais classes, à medida que lhes garante lugar de protagonismo resultante do domínio dos conteúdos eruditos fundamentais para  a manutenção desse modelo.


Ora, a vitória da classe burguesa sobre a estrutura estamental do medievo inaugura uma era revolucionária que afetará todas as dimensões da realidade, a qual será profundamente transformada a partir de ideias cuja apropriação pela classe agora hegemônica, permitirá uma total reformulação das estruturas sociais outrora vigentes notadamente a educação.

Sob a insígnia da redenção, a escola passará a ocupar importante papel na formação do ente humano, para cujo projeto o sistema burguês não olvidará dos recursos que encontram esteio na compreensão de que a razão humana perfaz a matriz à elaboração de um modelo pedagógico consentâneo aos valores ora incorporados e reitores de uma educação direcionada à reprodução do padrão liberal; para tanto, a estratégia de acesso gratuito e universal será fundamental à consolidação da nova conjuntura.


A centralidade do educador no modelo consagrado, classificado como tradicional, será  um dos aspectos pelos quais a classe dominante irá impor uma atualização dos métodos, discurso este, conforme o professor Dermeval Saviani em sua obra "Escola e Democracia", importante expoente da pedagogia no Brasil, que representará uma reação à universalização educacional que passa a representar uma consequente  apropriação dos conteúdos de ensino pelos filhos da classe trabalhadora, condição rechaçada pela propositura (imposição) do que se denominou métodos novos, cuja expressão eloquente seria a corrente escolanovista, marcada pela defesa de uma pedagogia baseada em processos, em consonância com os pressupostos científicos no bojo dos quais, e em nome do respeito às diferenças, o aluno assume protagonismo.

Impende sublinhar que Saviani, por meio de aguda investigação, conclui que tal mudança de concepção pedagógica oculta, por meio das diferenças, uma desigualdade materializada no esvaziamento dos conteúdos, os quais, reduzidos pelo novo método, são fundamentais à instrumentalização dos marginalizados por se tratar dos elementos dos quais se apropria os filhos da classe hegemônica e portanto perfazem os instrumentos que devem ser acessados pelos vulneráveis.

 

Este movimento a que o autor identificará como uma mobilização reativa por meio da elaboração e utilização de mecanismos voltados à "recomposição da hegemonia burguesa", traduz a noção de que o campo educacional é um terreno de repercussões políticas, no bojo do qual, as justificativas ao implemento e consequente domínio de determinados modelos pedagógicos se inscrevem na tessitura de um processo dialético em que uma tensão permanente e inescapável marcará, por um lado, as aspirações da classe trabalhadora e, por outro, os interesses da classe dominante em manter a dominação ad eternum.

 Em arremate, e sob a compreensão de que tal tensão - determinada por imperativos de natureza política - expressa os campos antagônicos em que se encontram as camadas populares e a elite dirigente, e, a despeito da propaganda midiática concebida a nos convencer acerca do caráter homogêneo a marcar a sociedade em seu conjunto, resta evidente que a preponderância de certos paradigmas pedagógicos deverá ser submetida a uma profunda análise de modo a extrair em que medida a prevalência dos interesses da classe dominante no âmbito do fazer pedagógico produz exclusão, bem como investigar por quais meios tal exclusão se concretiza sob o escamoteamento de que se reveste as mais bem intencionadas propostas.


Por uma educação verdadeiramente revolucionária,   

Maurício C. Alves.         

 

Referências bibliográficas

SAVIANI, Dermeval. Escola democracia. 42. ed. Campinas: Autores associados, 2012. Acesso às 21:13h; <https://www.unioeste.br/portal/arquivos/phc/D_Saviani_Escola_e_democracia.pdf>

Platão. A república. Coleção: filosofia à maneira clássica; Brasília:Kiron, 2012; 2. ed. 

 

Comentários

  1. O texto discute como a educação ao longo da história é influenciada por ideologias dominantes e interesses das elites, refletindo os valores e objetivos da sociedade em cada época. Destaca a complexidade das correntes filosóficas e pedagógicas que moldaram os métodos de ensino, evidenciando a relação entre educação e estrutura social. Além disso, explora como concepções históricas, como a de Platão, reforçavam a estratificação social e limitavam o acesso à educação a determinadas classes.

    Lavínia 1º A

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  2. Colégio estadual Evilásio Santana Gama.
    Samira Lopes.
    2°ano B

    A educação nunca é neutra: ela sempre reflete os ciclos ideológicos da sociedade. Quando a ideologia dominante valoriza a disciplina, a escola se torna rígida; quando se valoriza a crítica e a liberdade, a escola se abre para novos métodos. Entender esses ciclos é essencial para pensar o futuro da educação.

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  3. Seu texto pode ser resumido assim:

    Há uma tensão permanente entre os interesses da classe trabalhadora e a elite dirigente, que busca perpetuar sua dominação. Essa contradição também se manifesta na educação, onde paradigmas pedagógicos, sob aparência de neutralidade ou boas intenções, acabam reproduzindo a exclusão e servindo aos interesses da classe dominante. Torna-se, portanto, necessário analisar criticamente tais paradigmas e lutar por uma educação verdadeiramente revolucionária.

    Mirella de Oliveira Alves
    2 ano b
    Anexo mocambo

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  4. Yasmim Lima 2° B
    anexo - mocambo

    O texto reflete criticamente sobre o impacto das plataformas digitais na formação da subjetividade, destacando o desafio de conciliar o acesso democrático à tecnologia com a preservação da autonomia e diversidade humanas, sem reduzir o indivíduo a padrões condicionados e homogêneos.

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  5. O texto está mostrando como a educação é influenciada pelas ideologias dominantes e como isso se reflete nos modelos educacionais ao longo da história. É incrível como traz à tona a relação entre a estrutura social e a educação, e como as concepções de sociedade e de indivíduo se refletem nos modelos educacionais.
    A parte sobre a objetificação dos indivíduos na antiguidade e como isso se reflete na dimensão educacional. É um tema muito relevante e que ainda tem eco nos dias de hoje.


    Laila Manuela- 2º ano B.
    Anexo- Mocambo.

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